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Seremos todos Fernandos Pessoas?

por Alda Telles, em 30.11.10



"Não sei quem sou, que alma tenho.
Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros).
Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho.
Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas.
Como o panteísta se sente árvore e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada, por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."


 


Fernando Pessoa, 13 de Junho de 1988 - 30 de Novembro de 1935


 


Esta poderia ser a definição dos consumidores hoje. Uma enorme massa de heterónimos.


 


Adenda:


Depois de escrever este post, tropecei neste artigo e neste título: "Não existem mais consumidores, mas sim pessoas". Na mouche.


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